Por Andre Wormsbecker / Quantum Dox

Josef Mengele. Reprodução.
Mengele era infame pela dualidade de seu comportamento. Relatos de sobreviventes confirmam que ele frequentemente recebia as crianças (especialmente gêmeos, que eram seu principal objeto de estudo) com sorrisos e doces, passando uma imagem de gentileza, antes de usá-las em experimentos médicos cruéis ou enviá-las para as câmaras de gás.
A trajetória de Josef Mengele é marcada por um contraste perturbador entre sua origem privilegiada, a crueldade clínica em Auschwitz e a banalidade de seus últimos anos escondido no Brasil. Nascido em uma família rica de industriais na Alemanha, ele era um homem culto e ambicioso que se voluntariou para a SS, vendo nos campos de concentração uma oportunidade "científica" sem restrições éticas. Em Auschwitz, sua presença na plataforma de desembarque dos trens tornou-se lendária; impecavelmente uniformizado e frequentemente assobiando árias de ópera, ele decidia com um aceno de mão quem viveria para trabalhar e quem morreria imediatamente, demonstrando o comportamento dúbio de oferecer doces às crianças antes de submetê-las a vivissecções e testes de resistência à dor.
Após o colapso do regime nazista, Mengele conseguiu escapar para a América do Sul através das chamadas "rotas de ratos", desembarcando inicialmente na Argentina. Em Buenos Aires, viveu com relativo conforto e segurança por quase uma década, chegando a trabalhar na empresa de maquinários agrícolas de sua família e circulando pela alta sociedade local. No entanto, o cenário mudou drasticamente no final da década de 1950, quando o serviço secreto israelense, o Mossad, capturou Adolf Eichmann, outro arquiteto do Holocausto que vivia na região. Temendo ser o próximo alvo, Mengele fugiu para o Paraguai e, em seguida, cruzou a fronteira para o Brasil por volta de 1960.

Josef Mengele. Reprodução.
No Brasil, sua vida foi uma progressiva descida ao isolamento e à paranoia. Inicialmente, ele viveu em cidades do interior de São Paulo, como Nova Europa e Serra Negra, sob a proteção de famílias de expatriados austríacos e húngaros, como os Stammer. Nessas fazendas, ele assumia o papel de administrador ou veterinário prático, cuidando do gado e mantendo uma rotina discreta. Apesar de estar foragido, ele não vivia em condições miseráveis nessa época, recebendo dinheiro da família na Alemanha, mas o medo constante de ser descoberto moldava sua existência. Ele construiu torres de observação para vigiar quem se aproximava das propriedades onde morava e saía de casa sempre acompanhado de cães de guarda.
Conforme os anos passavam e as relações com seus protetores se desgastavam, Mengele mudou-se para áreas mais próximas à capital paulista, vivendo em Caieiras e, finalmente, no bairro de Eldorado, em Diadema, uma região periférica e cercada pela represa Billings. Nessa fase final, sua saúde física e mental deteriorou-se visivelmente. O homem antes vaidoso tornou-se um idoso amargo e solitário, que passava os dias escrevendo memórias confusas em dezenas de cadernos e mastigando as pontas do bigode, um tique nervoso relatado por quem conviveu com ele. Foi nessa época que ele estreitou laços com o casal Wolfram e Liselotte Bossert, e passou a utilizar a identidade de Wolfgang Gerhard, um austríaco que retornara à Europa e lhe cedera os documentos.
O fim de um dos criminosos mais procurados do mundo foi anticlimático e solitário. Em fevereiro de 1979, o casal Bossert convidou Mengele para passar o verão na praia de Bertioga. Aos 67 anos, debilitado e sofrendo as consequências de um derrame anterior, ele entrou no mar calmo da praia da Enseada e sofreu um novo AVC, afogando-se antes que pudesse ser socorrido. Seu corpo foi sepultado sem alarde em Embu das Artes sob o nome falso que usava, e o segredo de sua morte foi mantido por seis anos, enquanto caçadores de nazistas ainda acreditavam que ele estava vivo e escondido nas selvas paraguaias. Somente em 1985, após uma denúncia vinda da Alemanha, a polícia brasileira localizou o túmulo e desenterrou a história final do "Anjo da Morte".

Josef Mengele. Reprodução.
O destino dos cadernos e diários de Josef Mengele revela um acervo de aproximadamente 3.500 páginas que ficaram escondidas por anos em residências de São Paulo. Esse material foi descoberto e apreendido pela Polícia Federal brasileira em 1985, durante as buscas na casa do casal Bossert, que havia abrigado o médico nazista em seus anos finais. Os manuscritos, escritos em cadernos escolares comuns, serviram inicialmente como peças fundamentais para a perícia grafotécnica, ajudando as autoridades a confirmar, por meio da caligrafia, que o homem enterrado em Embu das Artes era realmente o criminoso de guerra.
O conteúdo desses escritos é considerado profundamente perturbador por historiadores, pois revela uma mente que permaneceu congelada no tempo e na ideologia. Mesmo vivendo clandestinamente no Brasil por quase duas décadas, cercado pela diversidade étnica do país, Mengele utilizava suas anotações para reforçar suas crenças eugenistas e racistas, criticando a miscigenação brasileira e defendendo a suposta superioridade da raça ariana. Seus textos eram uma mistura desconexa de queixas cotidianas sobre problemas de saúde e solidão, observações sobre a natureza e tentativas de escrever uma autobiografia justificadora, na qual ele nunca manifestou qualquer sinal de arrependimento ou remorso pelos experimentos e mortes em Auschwitz.
Após o encerramento das investigações oficiais, a posse dos diários foi transferida para seu filho, Rolf Mengele, que residia na Alemanha. Rolf, que sempre manteve uma relação de distanciamento e condenação em relação ao passado do pai, optou por não lucrar diretamente com o material, mas os documentos acabaram entrando no mercado de colecionadores décadas depois. Em 2011, um polêmico leilão foi realizado nos Estados Unidos, onde o conjunto de cadernos foi arrematado por cerca de 245 mil dólares. O comprador foi um neto de sobreviventes do Holocausto que, de forma anônima, adquiriu os originais com o propósito de evitar que caíssem em mãos de grupos neonazistas, garantindo que o material fosse preservado em instituições de memória para servir como prova histórica da crueldade intelectual dos carrascos do Terceiro Reich.
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