Por Andre Wormsbecker

Embora você faça um esforço enorme para estar bem informado, bem sintonizado, bem educado, bem equilibrado e bem espiritualizado, a soma dos menores holofotes do mal irá perseguir a sua parcimônia até você voltar ao ponto de partida. Quero dizer, sim, você será abalroado pelo peso enorme das máquinas da Matrix. Até como uma forma despercebida de um encantamento silencioso e sutil você será guiado (talvez, bem lentamente) para acomodar a sua mente e o seu corpinho cansado de tantas afirmações/informações para voltar à sua zona de conforto primordial, colocando em voga sua autossabotagem e, por vezes, criando frases vitimistas para proteger o seu tão idolatrado ego.
Esta é a volta à Matrix.
Um sistema progressivamente perigoso e minuciosamente bem organizado para você imaginar que conseguiu livrar-se dele de uma maneira muito perspicaz e falsamente digna — como um vitorioso segurando um troféu feito apenas de pixels, o qual, no primeiro desligar da tela, será dizimado.
Como disse o personagem Agente Smith, em Matrix Revolutions (2003): “Liberdade, verdade, paz ou talvez amor? São ilusões, fantasias da percepção, sínteses temporárias de um débil intelecto humano tentando desesperadamente explicar uma existência sem significado ou propósito”. E é exatamente essa definição de existência que compreende um suposto caminho do despertar para a armadilha silenciosa da próxima temporada da sua própria Matrix.
Aquela palavrinha, por muitas vezes esnobe, o tal do “despertar” permanece apenas na premissa do seu arquétipo primordial — apenas como um aviso de que existe a possibilidade de um despertar de tempos em tempos que muitas pessoas conseguem alcançar (com muito esforço, diga-se de passagem).
Mas a energia da Matrix permite que este arquétipo do despertar permaneça por quanto tempo em seu mundo pesado, denso e frio? Estar na terceira dimensão e ser um exímio ninja se defendendo das lâminas cortantes do sistema pode durar muito pouco.
Por vezes, bem disfarçados, nos pegamos quietinhos em um cantinho, com algumas lágrimas presas e sorrateiras, nos perguntando: o que eu fiz? O que eu estou fazendo aqui? Estar 100% conectado, estando na terceira dimensão, exige um poder enorme de concentração, resiliência e resistência, já que puras verdades serão omitidas para que se possa comer um pedacinho de um sanduíche delicioso sem ser questionado. Sendo feliz por apenas 1 segundo da existência — como se aquele sabor saciasse seu desejo por apenas 1 segundo de uma realidade feliz.
Parece não termos mais a plenitude de nos sentirmos felizes, por pelo menos 1 segundo, por comer ou beber algo que pareça “errado”. O sistema questiona, corrói, castiga e sentencia!
Perdemos o brilho, o sorriso, a verdade, a felicidade e a experiência. Agora, somos inteligências burras esperando que a verdade e o caminho sejam reescritos e guiados pelas artificiais.
Pobre momento.